sexta-feira, 23 de março de 2012

Vagares

Caminhas
nos vagares vadios das lembranças,
doce eterna como no primeiro instante,
em que trêmula,
quase pálida,
num indisfarçado temor de criança,
confiaste ao meu coração
o teu coração...

O instante vibrante
reverbera no tempo,
e num Universo sem tempo pra poesia
és capaz de florescer a cada dia,
a cada duro golpe da sorte,
a cada morte em vida desferida.

Nagib Anderáos Neto
Num dia qulquer da década de setenta.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Criança

Tudo passa.
O tempo passa.
A vida e os sonhos vão com ele.
Passa a alegria e a tristeza,
Passa a dor.
Não passa a esperança,
Este límpido sentir
De criança.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Infância

Longe lá tão longe
O tempo esconde céus azuis em tardes modorrentas.
Zumbidos longínquos e monótonos de pequenos aviões escondidos
Atrás de nuvens de algodão.
Deitado na grama de um quintal silencioso
O tempo parado nao perguntava
Nem respondia,
Só eternizava.
Era um menino olhando um céu Infinito
Numa infancia que ainda não terminou.


Nagib Anderáos Neto

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

ANO NOVO

Cada hora como um dia, um ano, uma vida.
A cada novo minuto, uma renovada oportunidade.
Poder ser artífice do porvir é um dom divino,
Como a capacidade de pensar e sentir.

A vida é um dom divino,
E o homem, um ser divino, um Deus em formação.
A Natureza, o corpo estrutural de Deus.
A beleza e o amor, seu conteúdo.

Um ano termina e outro virá.
Um homem morre e outro o sucederá.
Importa a consciência e a ação,
O pensamento e a emoção.

Construir um novo mundo é construir-se.

Ano Novo é vida nova, novos sonhos e inspirações.

A Esperança é um sentimento divino; ela haverá de nos sustentar e mobilizar.


Feliz Ano Novo!



Nagib Anderáos Neto

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Criança

Tudo passa.
O tempo passa.
A vida e os sonhos vão com ele.
Passa a alegria e a tristeza,
Passa a dor.
Não passa a esperança,
Este límpido sentir
De criança.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Portulano

A viagem começa na infância,
Ninguém sabe ao certo qual desfecho.
Começa na ignorância
E não pode terminar do mesmo jeito.

O viajante se instrui no trajeto,
Tira vendas, apura o verbo,
Eleva a voz por todo o canto
E canta. Sua melodiosa voz
Há de inundar outro lugar.

A viagem não termina com a morte.
Não há sorte nem destino, apenas um canto:
O encanto de ter vivido
E aprendido.

Fevereiro 2010
Nagib Anderáos Neto

sábado, 12 de março de 2011

AUTOPSICOGRAFIA

Encontrei o papel amassado na gaveta com um texto apócrifo escrito com a minha letra há 20 anos. A data estava nítida, mas não me recordava de tê-lo escrito.
Recordei-me de um artigo do professor Deonísio da Silva que dizia ser o escritor uma espécie de médium, que não haveria muita decisão antecipada sobre o texto produzido. Os pretensos espíritos incorporados não seriam mais do que a própria pessoa a produzir literatura.
Alguns versos de Fernando Pessoa vieram-me à mente:
“O poeta é um fingidor/Finge tão completamente/Que chega a fingir que é dor/A dor que deveras sente”.
Para o professor, todos os livros são psicografados, criações humanas que podem ter vida própria, como os seres humanos. No dizer do editor José Antonio Antonini, “eles nascem, vivem um tempo, e depois morrem. Se forem muito bons, nascem de novo em novas encadernações”.
Todos os livros que escrevemos são psicografados, escritos por nosso espírito.
Lembrou-nos o professor que Goethe, ao morrer, pediu mais luz. E eu pensei que todos precisam de mais luz. E trouxe-me de volta Stephan Zweig, escritor que tanto li na juventude:
“Há no estertor da morte uma beleza/Transcendente, ignota, luminosa/ Beleza sossegada e silenciosa, /Da luz branca da Paz, trêmula e acesa...”.
Quanta luz encontramos no decorrer da vida em nossos amigos, nos livros, presenças que não morrem nunca...
Mas aquele papel amassado trazia o mistério da Esfinge que sempre me perseguiu.
“Este teu sangue metafísico/Corrente de antigas reminiscências/Traz no presente sensações incompreensíveis/ De já ter vivido e presenciado/A cena, o momento, a emoção. / Um rosto estranho se mostra familiar/ E a situação parece repetida/Filme já visto/História secular que irrompe no presente. /Novo na carne/Velho por dentro/És a expressão de um mistério indecifrado/Esfinge vivente/Em teu sonho pueril de ser etéreo, invisível/Herói desconhecido de um mundo infantil/Que ninguém, senão tu mesmo, haverá de explicar-te./
Estrondo de portas que explode na noite/Vivaldi alegre numa estação sem fim/Apartamento vazio/Alma incompreendida/Terremoto/Castelo de cartas/Noticias de jornal/Pregador solto/Vendaval “
A Esfinge vivente reportou-me à Gisé, às areias ao lado da pirâmide onde a misteriosa escultura olhava com seu sorriso enigmático- Monalisa do deserto- na direção do nascente, para além do tempo, para o infinito.A cabeça humana sobre o corpo de animal representando a vitória do espírito sobre a brutalidade, e seu misterioso nexo com Ra, o deus egípcio do sol, a ensinar que cada ser humano deveria decifrar-se para não ser devorado por sua natureza inferior.
O papel amassado continuava em minhas mãos e eu me recordei de tê-lo escrito. Pude reviver os momentos daquela noite longínqua e invernal, ouvir novamente o zunido do vento e Vivaldi a encantar numa estação sem fim.

Nagib Anderáos Neto
www.nagibanderaos.com.br