Na madrugada de 29 de Setembro de 1908, lúcido e recusando a presença de um padre, morreu Machado de Assis. Nascido aos 21 dias de Junho de 1839, numa parte suja da cidade do Rio de Janeiro, meio escravo, tornou-se um dos maiores escritores da amada língua portuguesa. Afeito à reflexão, ironizou a bondade dos brancos à época da abolição e também o advento republicano.
Sua morte lembra a de Voltaire. Ambos anticlericais, exímios escritores, conhecedores profundos da psicologia humana, críticos ímpares da sociedade e dos costumes, defensores da cultura e da liberdade, da literatura e da filosofia, lutaram bravamente contra as ervas-daninhas que entorpecem o solo mental e impedem o florescimento das idéias.
A leitura de Machado é uma aula de português sem-fim e um encontro com o Brasil – Colônia, com um Rio de Janeiro que não existe mais.
Os jovens leitores, no entanto, precisam ser preparados para lê-lo, e nunca por obrigação, como faziam nossos antigos mestres, pois a leitura deve ser uma forma de felicidade, como muito bem assinalou Borges, o notável escritor argentino.
Tendo passado pelo realismo e pelo romantismo, sua obra é muito reflexiva e irônica. Chama a atenção o soneto a Carolina, companheira de longos anos, na despedida em 1904:
Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.
Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro.
Trago-te flores, - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.
Que eu, se tenho aos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.
Machado de Assis do Rio antigo e da Academia, homem dos doces, das letras e dos jornais, brasileiro ímpar, nos diria que a vida dura um tanto e depois cessa. Diríamos que não, pois ele prova a nossa tese: a vida dura quanto deve durar e pode transcender a morte, como a dele, que continua vivendo na nossa.
E de certa forma ele assim o intuiu no soneto que fala do mundo interior como um contraponto à natureza exterior quando diz:
E contudo, se fecho os olhos e mergulho
Dentro de mim, vejo à luz de outro sol, outro abismo
Em que um mundo mais vasto, armado de outro orgulho,
Rola a vida imortal e o eterno cataclismo,
E, como o outro, guarda em seu âmbito enorme,
Um segredo que atrai, que desafia, - e dorme.
Nagib Anderáos Neto
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quarta-feira, 21 de julho de 2010
terça-feira, 13 de julho de 2010
Dante
Menino-pássaro
Sabiá sorridente
Escapou-me da mão
E penetrou no impossível sonho
Da infância
Pousando feliz
No abraço carinhoso de meu pai.
Dezembro de 2006
Sabiá sorridente
Escapou-me da mão
E penetrou no impossível sonho
Da infância
Pousando feliz
No abraço carinhoso de meu pai.
Dezembro de 2006
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Aspásia
Aspásia da Terra
da glória e da Pérsia,
Aspásia da chama
da história da Grécia.
Aspásia das penas
do encanto de Atenas,
Aspásia das pernas
dos gritos das fêmeas.
Aspásia das teimas
dos prantos das gêmeas,
Aspásia das frases
das Fúrias e das feras.
Aspásia de Péricles
Helena e Targélia
Aspásia das guerras
de heteras
e da Paz.
Nagib Anderáos Neto
da glória e da Pérsia,
Aspásia da chama
da história da Grécia.
Aspásia das penas
do encanto de Atenas,
Aspásia das pernas
dos gritos das fêmeas.
Aspásia das teimas
dos prantos das gêmeas,
Aspásia das frases
das Fúrias e das feras.
Aspásia de Péricles
Helena e Targélia
Aspásia das guerras
de heteras
e da Paz.
Nagib Anderáos Neto
Dá-me O Sol Esplêndido E Silente - Walt Whitman
Dá-me o esplêndido e silente sol com todos os seus raios brilhantes de luz,
Dá-me o suco outonal da fruta madura e vermelha do pomar,
Dá-me um campo onde a alta relva cresça,
Dá-me uma árvore, dá-me uma parreira,
Dá-me o cereal fresco e o trigo, a semovente serenidade dos animais que ensinam alegria,
Dá-me noites perfeitamente quietas como nos altos planaltos ocidentais do Mississippi, e eu olhando para as estrelas,
Dá-me os odores de um jardim ao nascer do sol onde eu possa caminhar em paz,
Dá-me, como esposa, a mulher do hálito doce de quem eu nunca me canse,
Dá-me uma criança perfeita, dá-me um caminho longe da turbulência do mundo,
Dá-me uma vida doméstica e rural,
Dá-me o gorjeio de sons interiores só para os meus ouvidos,
Dá-me a solitude, dá-me a Natureza,
Dá-me novamente, oh Natureza, tuas quietudes primitivas...
Tradução: Nagib Anderáos Neto
Dá-me o suco outonal da fruta madura e vermelha do pomar,
Dá-me um campo onde a alta relva cresça,
Dá-me uma árvore, dá-me uma parreira,
Dá-me o cereal fresco e o trigo, a semovente serenidade dos animais que ensinam alegria,
Dá-me noites perfeitamente quietas como nos altos planaltos ocidentais do Mississippi, e eu olhando para as estrelas,
Dá-me os odores de um jardim ao nascer do sol onde eu possa caminhar em paz,
Dá-me, como esposa, a mulher do hálito doce de quem eu nunca me canse,
Dá-me uma criança perfeita, dá-me um caminho longe da turbulência do mundo,
Dá-me uma vida doméstica e rural,
Dá-me o gorjeio de sons interiores só para os meus ouvidos,
Dá-me a solitude, dá-me a Natureza,
Dá-me novamente, oh Natureza, tuas quietudes primitivas...
Tradução: Nagib Anderáos Neto
A Revolução - Emily Dickinson
A Revolução é a Entranha
Onde se gestam todos os sistemas.
Quando os ventos da Vontade se movem,
Excelente é a Floração.
A não ser por sua natureza avermelhada
Todo o verão é uma armadilha para si mesmo,
Como a Liberdade,
Que deixada inerte no caule,
Com toda a sua púrpura fugidia,
É sacudida pela Revolução
Para provar a sua morte.
Emily Dickinson – 1854
Traduzido por Nagib Anderáos Neto
Onde se gestam todos os sistemas.
Quando os ventos da Vontade se movem,
Excelente é a Floração.
A não ser por sua natureza avermelhada
Todo o verão é uma armadilha para si mesmo,
Como a Liberdade,
Que deixada inerte no caule,
Com toda a sua púrpura fugidia,
É sacudida pela Revolução
Para provar a sua morte.
Emily Dickinson – 1854
Traduzido por Nagib Anderáos Neto
Impostura
Antigas e tenebrosas palavras,
preconceituosas e pesadas,
verbo mentiroso e escravizante,
haveremos de levanter-te a espada mais brilhante
e cortar-te em letras que se dissolverão no tempo.
Nagib Anderáos Neto
23/12/05
www.nagibanderaos.com.br
preconceituosas e pesadas,
verbo mentiroso e escravizante,
haveremos de levanter-te a espada mais brilhante
e cortar-te em letras que se dissolverão no tempo.
Nagib Anderáos Neto
23/12/05
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Tigre- William Blake ( 1757- 1827 ) -
Tigre, tigre, brilho ardente
Nas florestas do poente,
Que mão imortal, que olhar formaria
A tua rara simetria?
Em que abismo distante, em que altura
Ardeu o fogo do teu olhar?
Em que asas ousaste te elevar?
Qual a mão ousou da chama se apossar?
Qual o ombro, qual a arte
Teceria as fibras do teu coração?
E tendo ele batido
Que terríveis pés, que terrível mão?
Qual martelo? Qual ferramenta?
Qual fornalha fundiu a tua mente?
Qual bigorna? Que força terrível
Ousa teus temores mortais abraçar?
Quando as estrelas lançaram seus dardos
(de luz)
E inundaram o céu com suas lágrimas,
Vendo Sua Obra Ele sorriu?
Ele que fez o cordeiro e a ti?
Tigre, tigre, brilho ardente
Nas florestas do poente,
Que mão imortal, que olhar formaria
A tua rara simetria?
Tradução: Nagib Anderáos Neto
neto.nagib@gmail.com
Nas florestas do poente,
Que mão imortal, que olhar formaria
A tua rara simetria?
Em que abismo distante, em que altura
Ardeu o fogo do teu olhar?
Em que asas ousaste te elevar?
Qual a mão ousou da chama se apossar?
Qual o ombro, qual a arte
Teceria as fibras do teu coração?
E tendo ele batido
Que terríveis pés, que terrível mão?
Qual martelo? Qual ferramenta?
Qual fornalha fundiu a tua mente?
Qual bigorna? Que força terrível
Ousa teus temores mortais abraçar?
Quando as estrelas lançaram seus dardos
(de luz)
E inundaram o céu com suas lágrimas,
Vendo Sua Obra Ele sorriu?
Ele que fez o cordeiro e a ti?
Tigre, tigre, brilho ardente
Nas florestas do poente,
Que mão imortal, que olhar formaria
A tua rara simetria?
Tradução: Nagib Anderáos Neto
neto.nagib@gmail.com
Luiza
Quanta luz desliza deste teu olhar
Que vem pra ser feliz e me ensinar
A te ensinar a conjugar
O doce verbo amar.
Desta luz precisa
Que da alta esfera tudo ilumina
Resta chama pequena e decidida
Que em teu coração de menina
Vem me alegrar.
22 de Junho de 2008
Aniversário da netinha Luiza Gattai Anderáos Delfim.
1 ano.
Nagib Anderáos Neto
www.twitter.com/anderaosnagib
Que vem pra ser feliz e me ensinar
A te ensinar a conjugar
O doce verbo amar.
Desta luz precisa
Que da alta esfera tudo ilumina
Resta chama pequena e decidida
Que em teu coração de menina
Vem me alegrar.
22 de Junho de 2008
Aniversário da netinha Luiza Gattai Anderáos Delfim.
1 ano.
Nagib Anderáos Neto
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Rastejar ou Voar?
Escondido aqui, nunca totalmente escondido. Alguém me encontrará, interromperá meus pensamentos, me fará postergar a idéia, o verso, esta retroconstrução. Sempre alguém, sempre alguém. A vida é construção, interrupção, solidão.
Liberar-se do cíclico, alçar-se com o coração. O outro é imagem especular e instrutiva.
Uma vida longa assim traz suas
conveniências. O inconveniente é o esquecimento.
Há os que rastejam e os que voam. Entre mim e eles,
ensaio.
É chegada a hora de cantar.
Agora, afinada a voz,
hei de cantar. Ouçam-me os surdos,
vejam-me os cegos.
Agora que aprendi a voar,
eu vou cantar.
Não sou nem a cigarra, nem a formiga,
sei que sou humano e vou cantar.
Uns passam a vida contando os seus dinheiros.
Outros, olhando-se em espelhos.
Jogo tudo fora pra voar,
E se faltar-me asa,
Vou cantar.
E se faltar-me a voz,
eu vou sonhar...
Primavera de 2009. A meu filho André.
Nagib Anderáos Neto
www.nagibanderaos.com.br
twitter @anderaosnagib
Liberar-se do cíclico, alçar-se com o coração. O outro é imagem especular e instrutiva.
Uma vida longa assim traz suas
conveniências. O inconveniente é o esquecimento.
Há os que rastejam e os que voam. Entre mim e eles,
ensaio.
É chegada a hora de cantar.
Agora, afinada a voz,
hei de cantar. Ouçam-me os surdos,
vejam-me os cegos.
Agora que aprendi a voar,
eu vou cantar.
Não sou nem a cigarra, nem a formiga,
sei que sou humano e vou cantar.
Uns passam a vida contando os seus dinheiros.
Outros, olhando-se em espelhos.
Jogo tudo fora pra voar,
E se faltar-me asa,
Vou cantar.
E se faltar-me a voz,
eu vou sonhar...
Primavera de 2009. A meu filho André.
Nagib Anderáos Neto
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Saudade Funda
O corpo dorme, o espírito sonha.
Um encarcerado nos barrotes da carne.
O outro alçando-se em voo sobre a
Mediocridade plana da vida.
Antes ser criança.
Sou como um poema que não chegou a ser.
A saudade é funda
E o tempo acaba.
Talvez depois de lá
Eu volte a ser o que não fui,
O que sempre quis ser,
O que sonhei,
O que serei.
2009
Nagib Anderáos Neto
neto.nagib@gmail.com
www.nagibanderaos.com.br
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Um encarcerado nos barrotes da carne.
O outro alçando-se em voo sobre a
Mediocridade plana da vida.
Antes ser criança.
Sou como um poema que não chegou a ser.
A saudade é funda
E o tempo acaba.
Talvez depois de lá
Eu volte a ser o que não fui,
O que sempre quis ser,
O que sonhei,
O que serei.
2009
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