quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A Outra Morte

Seremos as eternas crianças,
até que deixemos o planeta para outra aventura maior.
A morte não é o grande acontecimento,
senão o nascimento, uma outra morte,
ausência dolorida de um mundo onde não havia a dor.

Mas aqui haveria de ocorrer o aprendizado,
mais uma e outra vez,
até que fosse consumado.
Se não formos capazes de realizá-lo,
alguém será.
Vida sem conhecimento é nada,
planta estéril que não mereceu a oportunidade
de nascer.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Sahy

A Barra do Sahy, eu já estive ali.
O mar, a fogueira, a montanha.
Andava livre pela praia sem compromissos.
Eu era parte da Natureza
Noutro tempo, noutro ritmo.
Continuo ali, apesar de estar aqui.
Naquele tempo eu sonhava,
Não sabia que poderia pensar,
Não sabia que poderia criar.

Primavera de 2010

Verso na Areia

Sobrou-me apenas um
verso escrito na areia
que a maré não apagou,
mas me recordo dele,
e isso me basta.

25/10/2010

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Um Exemplo de Alegria

Minha mãe tem 91 anos. Caminha todas as manhãs cerca de uma hora pelas ruas do bairro com a acompanhante. De onde vem tanta saúde? É que colocavam um pouquinho de vinho na minha mamadeira, ela brinca. É portuguesa, veio muito pequena. Nem sotaque tem.

Quando dona Olga estava com 68 anos, levei-a para conhecer a aldeia, Edral, ao norte, perto de Bragança. Do alto de uma enorme montanha se divisava grande parte de Portugal setentrional. Gente muito clara, pastores- dizem que descendentes dos celtas - vinhas, passas dependuradas nos forros de madeira das simples e confortáveis casas de pedra.

Alguns parentes que a viram nascer estavam ali. A emoção foi grande. Pensaram que viéramos reclamar herança. Não primo, viemos para conhecê-los. E foi festa por todo um dia regada a vinho, iguarias e alegria.

Depois a despedida e nunca mais. Ficaram a lembrança e a fotografia da emoção.

Muitos parentes certamente não estão mais por aqui, mas a saudável anciã continua a nos observar, a nos vigiar e ensinar a ser felizes, otimistas e sorrir sempre, seguir caminhando alegremente por esta infindável e formosa estrada da vida.

Nagib Anderáos Neto

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

BANZAI

A surpresa chegou numa caixinha de Sedex com uma carta do amigo Walter Ono. Uma dose do elixir da longa vida e um exemplar de Fup, o livrinho de Jim Dodge que iria contar a história de uma pata diferente.

“Pra amigos não precisa se explicar. Eles entendem... Há vinte anos venho desenvolvendo um elixir da longa vida. Dos panteístas, no meio da floresta, servi o amargo sumo da Terra. Dancei premonições de Xamãs com raios caindo sobre suas cabeças arrepiadas. Ouvi polímatas sublimarem sabores do conhecimento destilados em cadinhos de tantas coisas, com tantos odores que guardei nas dobras da memória.”

“Longevo só, não tem graça. A vida com os amigos, sim. Aqui vai uma dose do elixir da longa vida...”

“Fly! Comprovar é muito demorado, mas posso afirmar que a nossa sobrevida vai até o último sussurro do derradeiro amigo. Banzai! (Walter Ono. Primavera chegando no ano da graça de dois mil e sete).”

O presente chegou numa sorridente manhã de Setembro. Pensei que Deus falara comigo através das palavras do Walter. Mas Ele é assim mesmo, está tão presente e – por nossa falta de inteligência – tão ausente.

Na Natureza, em nossos corações, e especialmente representado em nossos amigos.

Agora eu leria a história de Fup, a pata diferente, que mesmo antes de conhecê-la me trouxera uma lição difícil de esquecer.

E o elixir ficaria ali no criado-mudo a me falar da amizade, da eternidade, da sobrevida e do derradeiro amigo.
Banzai!
Nagib Anderáos Neto
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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Denise

Falta aos meus olhos o teu olhar
Que em tudo vê o mar.
Falta ao teu olhar o meu olhar
Que sem te ver
É capaz de entrever,
De enxergar através da penumbra
E se elevar.

Se a nossa missão foi sonhar,
Fizemos de tudo, fizemos o melhor.
Alçamo-nos,
E no sonho impossível
Conseguimos voar.

Nagib
Primavera de 2010
Para a minha sobrinha que é como uma filha.
Por detrás destes poucos versos,
Meu sincero e sentido amor.

sábado, 18 de setembro de 2010

A sobrevivência do Homem-Deus

Whitman (o poeta da meia-noite, do sono, da morte e das estrelas, que se autoconsiderava uma espécie de deus libertador americano, contrapondo-se às tradições, que para ele eram coisas mortas, fria argamassa e tijolo), aquele que não necessitava de nenhum ídolo que não fosse ele próprio, é considerado o centro do cânone americano.
“Não posso conceber nenhum ser mais maravilhoso que o homem”, dizia. E ele nos impressiona, sobretudo, ao lançar um grito eterno e metafísico para o futuro, um sonoro e alto brado à procura de ouvidos seculares que pudessem ser os próprios, preparados ouvidos para o murmúrio poético, metafísico e ardente:
“Cheio de vida, hoje, compacto e visível,
Eu, com quarenta anos de idade no ano oitenta e três dos Estados Unidos.
A ti, dentro de um século ou de muitos séculos
A ti, que não nasceste, te busco.
Estás lendo-me. Agora o invisível sou eu,
Agora és tu, compacto, visível, o que intui os versos e o que me busca,
Pensando o feliz que seria se eu pudesse ser teu companheiro.
Sê feliz como se eu estivesse contigo. (Não tenhas demasiada segurança de que eu não esteja contigo).”
Nagib Anderáos Neto

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Correspondências

Comprei AS Flores do Mal em oitenta e sete. Era uma tradução de Jamil Almansur Haddad. Li e reli a obra do poeta francês, mas Baudelaire continuou distante do que eu pudesse sentir ou compreender. Os tradutores são, de certa forma, traidores. É muito difícil ser fiel ao texto, principalmente no caso da poesia. Mesmo assim, houve ali dois poemas que me chamaram a atenção: Correspondências e O Albatroz.
Muitos anos depois, ao ler a biografia do poeta, seguindo o conselho de Beto Portinari, compreendi melhor aqueles dois poemas e toda a obra do angustiado escritor. O amigo dissera-me que a leitura da vida do artista poderia me ajudar a compreender a sua obra.
Como em meu tempo de menino o francês era matéria obrigatória na escola, arrisquei a minha própria traição:
“A Natureza é um templo onde os pilares viventes
Deixam, às vezes, escapar palavras confusas.”
Estes primeiros versos transportaram-me à infância e fizeram-me experimentar novamente o sentimento panteísta, pois vozes misteriosas respondem-se na Natureza anunciando uma correspondência entre o que é visível e invisível, entre matéria e espírito, pois ela é um vasto templo, único e verdadeiro, cujos pilares deixam à mostra hieróglifos misteriosos e familiares que o passante distraído não os percebe, mas que os decifradores podem captar.
“O homem atravessa-a através de uma floresta de símbolos que observam-no com olhares familiares.”
O mundo visível como uma outra face do invisível. E por que não mais real? O véu que cobre a Natureza desvela uma realidade maior, embora invisível aos olhos físicos.
“Como ecos prolongados que na distância se confundem numa tenebrosa e profunda unidade, vasta como a noite e a claridade, perfumes, cores e sons se respondem”.
“Há perfumes frescos como a carne das crianças, doces como o som do oboé, verdes como as pradarias, e outros corrompidos, ricos e triunfantes, tendo a expansão de coisas infinitas, como o âmbar, o almíscar e o incenso que cantam os transportes do espírito e dos sentido.”
Toda esta simbologia de Baudelaire, onde o físico e o metafísico confundem-se numa inspiração que nem o próprio poeta sabe de onde vem, reporta-nos aos símbolos e às metáforas de Borges e Fernando Pessoa:
“Símbolos? Estou farto de símbolos”,
diz-nos o amargurado engenheiro Álvaro de Campos.
“Mas dizem que tudo é símbolo.
Todos me dizem nada.”
E alguns dias antes, o engenheiro-poeta resume versejando, lá pelos idos de 33:
“Símbolos. Tudo símbolos.
Se calhar tudo é símbolos.
Será tu um símbolo também? “
Neste Universo de símbolos, tudo são metáforas. Alguém já expressou que toda a palavra é uma metáfora morta. Seria o ser humano uma metáfora viva, expressão ou símbolo de uma realidade maior?
A palavra metáfora provém do grego e fundamenta-se numa relação de semelhança entre o sentido próprio de uma palavra e o figurado.
No clássico exemplo de se chamar de raposa uma pessoa astuta ou a juventude como a primavera da vida, o esperto animal empresta vivacidade aos humanos e a Natureza a sua beleza à juventude.
Há eloqüentes metáforas cheias de otimismo e de vida e as negras e entristecidas. A luz do conhecimento que poderia iluminar os escuros âmbitos do entendimento sugere vida, aprendizado e uma outra metáfora: o caminho do aperfeiçoamento que poderia ser percorrido pela inteligência de quem decidisse abandonar as velhas metáforas da passividade, do conformismo e do pessimismo.
A vida, como um vale de sofrimentos e de lágrimas, metáfora menor e entristecida que nos reporta ao aforismo pessimista que diz que ela é amarga ou que errar é humano, faz-nos refletir que a vida deve ser doce e que acertar é humano.
Se as nossas vidas são metáforas, expressões e símbolos de uma realidade maior, façamos com que elas se preencham com o conteúdo da natureza cheia de luz, movimento e transformação, e se correspondam com a Natureza.

Nagib Anderáos Neto
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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Querida

Vejo-te nestas manhãs e ao teu lado
silenciosamente sinto-me vivo, respirando.

Tua agitação me acalma, teu sorriso,
cafezinho na cozinha. No jardim
o beija-flor brinca em volta do ipê-roxo
que plantamos juntos. Quanto tempo e
quanta paciência até que surgisse a primeira flor!
Lição de Deus em nosso quintal. E nem reparávamos.

É a cara da mãe!
As fugas, o dinheiro emprestado, o ano repetido,
minhas poesias, meus sofrimentos...
Eras sempre a primeira a saber.Sofrias comigo
e o meu sofrimento dividido
não era tão doído.

O bairro da Aclimação, brigas de rua,
ensaios na TV Tupi, meu sagui, galinhas
da Angola, o amigo Raposo, pestanas queimadas.

Lembro-me do primeiro ônibus elétrico
e do IV Centenário no Ibirapuera.

Não deixarei que nada caia no esquecimento.
Vejo-te nestas manhãs e ao teu lado
silenciosamente ouço o teu silêncio.

Nagib Anderáos Neto
27/08/82

sábado, 4 de setembro de 2010

Teus Olhos

Teus olhos
Inusitados versos
Os meus lindos caminhos
Que percorro sem cessar.

Teus olhos
Imensidão
A vida que cintila
Aonde os meus olhos se vão.

Eu caminho nos teus dias
Eu caminho nos teus olhos
Pois eu vou na imensidão
Aonde os teu olhos se vão.

Nagib Anderáos Neto

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Machado de Assis

Na madrugada de 29 de Setembro de 1908, lúcido e recusando a presença de um padre, morreu Machado de Assis. Nascido aos 21 dias de Junho de 1839, numa parte suja da cidade do Rio de Janeiro, meio escravo, tornou-se um dos maiores escritores da amada língua portuguesa. Afeito à reflexão, ironizou a bondade dos brancos à época da abolição e também o advento republicano.
Sua morte lembra a de Voltaire. Ambos anticlericais, exímios escritores, conhecedores profundos da psicologia humana, críticos ímpares da sociedade e dos costumes, defensores da cultura e da liberdade, da literatura e da filosofia, lutaram bravamente contra as ervas-daninhas que entorpecem o solo mental e impedem o florescimento das idéias.
A leitura de Machado é uma aula de português sem-fim e um encontro com o Brasil – Colônia, com um Rio de Janeiro que não existe mais.
Os jovens leitores, no entanto, precisam ser preparados para lê-lo, e nunca por obrigação, como faziam nossos antigos mestres, pois a leitura deve ser uma forma de felicidade, como muito bem assinalou Borges, o notável escritor argentino.
Tendo passado pelo realismo e pelo romantismo, sua obra é muito reflexiva e irônica. Chama a atenção o soneto a Carolina, companheira de longos anos, na despedida em 1904:

Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro.

Trago-te flores, - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho aos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.

Machado de Assis do Rio antigo e da Academia, homem dos doces, das letras e dos jornais, brasileiro ímpar, nos diria que a vida dura um tanto e depois cessa. Diríamos que não, pois ele prova a nossa tese: a vida dura quanto deve durar e pode transcender a morte, como a dele, que continua vivendo na nossa.
E de certa forma ele assim o intuiu no soneto que fala do mundo interior como um contraponto à natureza exterior quando diz:

E contudo, se fecho os olhos e mergulho
Dentro de mim, vejo à luz de outro sol, outro abismo
Em que um mundo mais vasto, armado de outro orgulho,

Rola a vida imortal e o eterno cataclismo,
E, como o outro, guarda em seu âmbito enorme,
Um segredo que atrai, que desafia, - e dorme.


Nagib Anderáos Neto
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terça-feira, 13 de julho de 2010

Dante

Menino-pássaro
Sabiá sorridente
Escapou-me da mão
E penetrou no impossível sonho
Da infância
Pousando feliz
No abraço carinhoso de meu pai.

Dezembro de 2006

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Aspásia

Aspásia da Terra
da glória e da Pérsia,
Aspásia da chama
da história da Grécia.
Aspásia das penas
do encanto de Atenas,
Aspásia das pernas
dos gritos das fêmeas.
Aspásia das teimas
dos prantos das gêmeas,
Aspásia das frases
das Fúrias e das feras.
Aspásia de Péricles
Helena e Targélia
Aspásia das guerras
de heteras
e da Paz.

Nagib Anderáos Neto

Dá-me O Sol Esplêndido E Silente - Walt Whitman

Dá-me o esplêndido e silente sol com todos os seus raios brilhantes de luz,
Dá-me o suco outonal da fruta madura e vermelha do pomar,
Dá-me um campo onde a alta relva cresça,
Dá-me uma árvore, dá-me uma parreira,
Dá-me o cereal fresco e o trigo, a semovente serenidade dos animais que ensinam alegria,
Dá-me noites perfeitamente quietas como nos altos planaltos ocidentais do Mississippi, e eu olhando para as estrelas,
Dá-me os odores de um jardim ao nascer do sol onde eu possa caminhar em paz,
Dá-me, como esposa, a mulher do hálito doce de quem eu nunca me canse,
Dá-me uma criança perfeita, dá-me um caminho longe da turbulência do mundo,
Dá-me uma vida doméstica e rural,
Dá-me o gorjeio de sons interiores só para os meus ouvidos,
Dá-me a solitude, dá-me a Natureza,
Dá-me novamente, oh Natureza, tuas quietudes primitivas...
Tradução: Nagib Anderáos Neto

A Revolução - Emily Dickinson

A Revolução é a Entranha
Onde se gestam todos os sistemas.
Quando os ventos da Vontade se movem,
Excelente é a Floração.

A não ser por sua natureza avermelhada
Todo o verão é uma armadilha para si mesmo,
Como a Liberdade,
Que deixada inerte no caule,
Com toda a sua púrpura fugidia,
É sacudida pela Revolução
Para provar a sua morte.

Emily Dickinson – 1854
Traduzido por Nagib Anderáos Neto

Impostura

Antigas e tenebrosas palavras,

preconceituosas e pesadas,

verbo mentiroso e escravizante,

haveremos de levanter-te a espada mais brilhante

e cortar-te em letras que se dissolverão no tempo.


Nagib Anderáos Neto
23/12/05
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Tigre- William Blake ( 1757- 1827 ) -

Tigre, tigre, brilho ardente
Nas florestas do poente,
Que mão imortal, que olhar formaria
A tua rara simetria?

Em que abismo distante, em que altura
Ardeu o fogo do teu olhar?
Em que asas ousaste te elevar?
Qual a mão ousou da chama se apossar?

Qual o ombro, qual a arte
Teceria as fibras do teu coração?
E tendo ele batido
Que terríveis pés, que terrível mão?

Qual martelo? Qual ferramenta?
Qual fornalha fundiu a tua mente?
Qual bigorna? Que força terrível
Ousa teus temores mortais abraçar?

Quando as estrelas lançaram seus dardos
(de luz)
E inundaram o céu com suas lágrimas,
Vendo Sua Obra Ele sorriu?
Ele que fez o cordeiro e a ti?

Tigre, tigre, brilho ardente
Nas florestas do poente,
Que mão imortal, que olhar formaria
A tua rara simetria?

Tradução: Nagib Anderáos Neto
neto.nagib@gmail.com

Luiza

Quanta luz desliza deste teu olhar
Que vem pra ser feliz e me ensinar
A te ensinar a conjugar
O doce verbo amar.

Desta luz precisa
Que da alta esfera tudo ilumina
Resta chama pequena e decidida
Que em teu coração de menina
Vem me alegrar.

22 de Junho de 2008
Aniversário da netinha Luiza Gattai Anderáos Delfim.
1 ano.

Nagib Anderáos Neto
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Rastejar ou Voar?

Escondido aqui, nunca totalmente escondido. Alguém me encontrará, interromperá meus pensamentos, me fará postergar a idéia, o verso, esta retroconstrução. Sempre alguém, sempre alguém. A vida é construção, interrupção, solidão.
Liberar-se do cíclico, alçar-se com o coração. O outro é imagem especular e instrutiva.

Uma vida longa assim traz suas
conveniências. O inconveniente é o esquecimento.
Há os que rastejam e os que voam. Entre mim e eles,
ensaio.
É chegada a hora de cantar.
Agora, afinada a voz,
hei de cantar. Ouçam-me os surdos,
vejam-me os cegos.
Agora que aprendi a voar,
eu vou cantar.
Não sou nem a cigarra, nem a formiga,
sei que sou humano e vou cantar.

Uns passam a vida contando os seus dinheiros.
Outros, olhando-se em espelhos.
Jogo tudo fora pra voar,
E se faltar-me asa,
Vou cantar.
E se faltar-me a voz,
eu vou sonhar...

Primavera de 2009. A meu filho André.
Nagib Anderáos Neto
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twitter @anderaosnagib

Saudade Funda

O corpo dorme, o espírito sonha.
Um encarcerado nos barrotes da carne.
O outro alçando-se em voo sobre a
Mediocridade plana da vida.

Antes ser criança.
Sou como um poema que não chegou a ser.

A saudade é funda
E o tempo acaba.
Talvez depois de lá
Eu volte a ser o que não fui,
O que sempre quis ser,
O que sonhei,
O que serei.

2009
Nagib Anderáos Neto
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sábado, 19 de junho de 2010

OCIDENTES

Lá para onde me levam tais pores – de – sol
além das areias e das ondas
no ocidente impossível onde sonho encontrar-me,
talvez com outro nome, numa nova vestidura,
onde eu seja prescindível e possa olhar para outros ocidentes,

Lá na renovada e grandiosa Pasárgada,
entender-nos-emos através do olhar,
e cada sorriso será um aviso
a nos lembrar que existimos.

Deus não escreve livros,
escreve homens e Universos.
Homens escrevem versos
e constroem pontes e fazem guerras.

Espero-me no ocidente para lembrar com tristeza e alegria
que se fizéramos guerras e sofrêramos,
escrevêramos livros que nos confortariam no poente,
na profundez da noite sem-fim.

Nagib Anderáos Neto
2005-12-23
www.nagibanderaos.com.br

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Uma Paciente e Silenciosa Aranha

Uma aranha paciente e silenciosa
Isolada e ereta num pequeno promontório
Explorando o vasto vazio ao redor
Desfiando filamento a filamento para fora de si mesma,
Desfiando rápida e incansávelmente.

Oh minha alma desde o teu posto,
Cercada, isolada na imensidão oceânica do espaço,
Constantemente pensando, arriscando-te, movimentando-te procurando as esferas para conectá-las,
Até que a ponte necessária seja formada; até que a flexível âncora fixe,
Até que a teia que teces te prenda em algum lugar
Oh minha alma.

Traduzido por Nagib Anderáos Netowww.nagibanderaNagib Anderáos Neto
Publicado no Recanto das Letras em 30/12/2006

Clarice

Lembra-me Clarice, que resistiria à morte, não por temê-la, mas para não se separar dos queridos filhos e netos, da família.Num sonho me disse estar muito bem. Para o meu filho, que aprendera a voar.Deveria ter descoberto, mais viva do que nunca, que ficáramos desamparados e sós.
Clarice, que no nome traz a luz, nos disse, na eloquência do convivio, que viver é bom,mas conviver é melhor, como reler, como reviver.
Clarice, alguém já disse que todos os homens são um só, como os livros. Tudo se confunde em Deus, tudo se manifesta em nós.
Saudade.

A Poesia Solar de Fernando Pessoa



Num meio-dia qualquer, é possível vislumbrar a poesia solar de Fernando Pessoa na voz de Alberto Caieiro, seu mestre. Deseja-nos sol e vida. Ao meio-dia, com a vida a pino, verticalizamos nossas perspectivas humanas.
Que tenhamos em nossas casas uma cadeira predileta ao pé de uma janela aberta. Poesia e sol! Pela janela aberta é possível a entrada dos raios solares; e se fecha os olhos, “começa a não saber o que é o sol” porque se é, na verdade, do tamanho do que se é capaz de ver; não fechar a janela e não fechar os olhos para que a luz possa penetrar.
Quando a criança eterna de Caieiro desistiu do céu, fugiu para o sol e depois “desceu pelo primeiro raio que apanhou”. A criança veio com um raio de sol. E seriam necessários uma janela e olhos bem abertos para vislumbrá-la, para compreendê-la, para permitir que ela fosse o dedo apontando a direção do nosso olhar.
Na lição solar há muito o que pensar e muita metafísica. Não o pensar comum, rotineiro, mas o que traz soluções luminosas, visto que “se o poente é belo, é bela a noite que fica”. “Nisto é que se deve pensar quando se vai morrer; e estar alegre ao viver por saber que o sol existe, apesar de tudo quanto não se saiba.”
Quando Caieiro, o guardador de rebanhos, concluiu que “não há mistério no mundo” e “que tudo vale a pena”, Fernando Pessoa, seu discípulo confesso, completa: “tudo vale a pena se a alma não é pequena”; é a lógica do tamanho da alma e da capacidade de ver com a inteligência. Por isso, “a nossa única riqueza é ver”.
O sol ilumina o cenário do Guardador de Rebanhos do início ao final e é seu principal protagonista. Nem Pessoa, nem Caiero, nem o leitor em sua cadeira predileta; mas o sol, sua luminosidade e energia, a vida e o conhecimento, o físico e o metafísico transfundidos na representação do divino para a inteligência e o coração humanos.
O poeta saúda-nos, deseja-nos sol e dá-nos sua poesia. Ao despedir-se de seus versos, do alto de sua janela, após concluir que passa e fica, como o Universo, deseja para si mesmo – e para sempre – um cenário como aquele: um dia cheio de sol!

Nagib Anderáos Neto

segunda-feira, 14 de junho de 2010

A Casa

Agradavam-me os dias chuvosos e as doenças infantis que me faziam ficar em casa sem ir para a escola.

A chuva, com seu cheiro e seus estrondos; a tarde anoitecida pelo temporal, o estalido seco do pingo no zinco, o frio, a cama, o cobertor, a mãe rondando os silêncios da casa vazia, seriam as recordações de um futuro repleto de passado.

Os acontecimentos fluiriam lentamente, sugados pelo buraco do tempo por onde a areia desce vagarosamente na infância, e decidida e apressadamente conforme chegam os anos e passa uma vida para dar lugar à outra.

Tudo se define no tempo e se explica na recordação. Tudo flui do futuro para o passado através de um presente que vai tendo cada vez mais significado.

Fosse a chuva, a catapora ou um simples resfriado, o importante era não sair, era ficar ali infinitas vezes até que aquela casa passasse a viver eternamente em meu coração.



Nagib Anderáos Neto

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sexta-feira, 4 de junho de 2010

Um Encontro Original

No botequim do Hugo conheci meu colega de bercário. Na verdade era ele e mais um, pois havia o gêmeo. Foi meio louco. Revi o cara depois de 61 anos. Mas aquela fisionomia era inesquecível. Conheço o sujeito de algum lugar, pensei.Depois de um e outro gole de cerveja, perguntei quantos anos ele tinha. Sessenta e um.Então você é de 48. Sim, Setembro. Eu também. Que dia? Oito. Eu de seis. Que coincidência! Nasci na Pró Matre, ele disse.Eu também. Então estávamos juntos no berçário!Nós três, ele disse, com o meu gêmeo.
Trocamos cartões, e-mails, telefones. Pra maior surpresa descobrimos que eramos vizinhos na Itacema, sem jamais nos termos visto.
A vida é assim. Nascemos estranhos, morreremos também.Talvez estejamos juntos na lápide fatal. E lá, de túmulo a túmulo, a conversa inaudível dos vivos que não se comunicam, até que o musgo cubra os nossos lábios, até que silenciemos para sempre.

Nagib Anderáos Neto
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quinta-feira, 3 de junho de 2010

Os Meus Livros - Jorge Luis Borges - Rosa Profunda

Os Meus Livros

Os meus livros (que não sabem que existo)
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que me exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
Dir-me-ão para sempre.

Jorge Luis Borges, in "A Rosa Profunda"

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A Palavra é Vida

Vestida sempre de branco, Emily Dickinson, a incomparável poetisa da América, reconstrói a Natureza repleta de flores, pássaros, animais e emoções. Transcende os limites acanhados de seu quarto simples de cidade do interior e se universaliza no coração da humanidade que a sucedeu sem ter nunca conhecido a glória do grande escritor, do grande artista.
Dedica-se à tarefa simples de sentir e transmitir, através da palavra, através da poesia, a grandiosidade que habita cada coração humano. E ali o seu baú transforma-se em celeiro literário desafiando a morte e o tempo, a ignorância e o esquecimento.
A palavra morre
Quando é dita,
Alguém diz.
Eu digo que ela começa
A viver
Naquele dia.
Com este poema curto e singelo ela atravessa o tempo e atinge o coração e as mentes reflexivas. O que é a palavra? Ela vive? Ela morre? Sobrevive a quem a pronunciou? Qual o mistério que a envolve e substancia? Qual a sua força?
O mistério da palavra é o mistério do pensamento. Ela é a expressão física daquele e, como tal, pode desaparecer; ele não. Ele, o pensamento, cruza o espaço e o tempo e pode sobreviver, como espírito, como chama, ao som físico e perecedouro.
Desaparece o som, desaparece a voz, fica o sentimento, o sentido, a raiz, a intenção, a emoção.
Assim é o homem-voz, expressão de um pensamento maior, anterior ao som e à palavra. Assim somos nós.

NAGIB ANDERÁOS NETO
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Extraído do livro Guardados Que Vivem

segunda-feira, 1 de março de 2010

Sagrada Escritura

A garrafinha foi encontrada numa linda praia de São Sebastião com aquele texto enroladinho que o menino apanhou com a maior curiosidade do mundo depois de arrancar a rolha com cuidado.
“Se queres ser um escritor, anda sempre com o teu bloquinho à mão. E escreve sobre a tua insatisfação contigo mesmo e com tudo o que te cerca: as injustiças que nos separam dos amigos e de Deus. E escreve sobre os deuses de mentira inventados para escravizar os fracos, e sobre os fracos, e sobre o teu sonho por ajudá-los. Escreve também sobre tuas fraquezas, e busca sempre um livro e um pouco de solidão. Aprende a calar, a ouvir e a esperar com inteligência. E ousa, ousa sempre, que grandes forças virão te auxiliar. E saiba que o maior livro, a maior obra, a inapagável, a permanente, é tua própria vida. Escreve, escreve sempre, escreve os dias, os meses, a vida, como Deus que te escreveu e a mim.
Agora, devolve-me tu ao mar...”

Verão 2009
Nagib Anderáos Neto

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Mãos

Mãos, mãos, lindas mãos
Que esculpem, escrevem,
Pintam, amam.
Mágicas mãos que movem
O mundo.
Minha pequena mão se une
Ao enorme movimento
Que tudo guia
Que tudo cria.

14/02/2010
Riviera

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Portulano

A viagem começa na infância.
Ninguém sabe ao certo qual desfecho.
Começa na ignorância
E não pode terminar do mesmo jeito.
O viajante se instrui no trajeto,
Tira as vendas, apura o verbo,
Eleva a voz por todo o canto
E canta. Sua melodiosa voz
Há de inundar o mais esquecido lugar.
A viagem termina com a morte.
Não há sorte nem destino, apenas um canto:
O encanto de ter vivido e aprendido.

Nagib Anderáos Neto
Ver]ão 2010

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Luiza

Quanta luz desliza deste teu olhar
Que vem pra ser feliz e me ensinar
A te ensinar a conjugar
O doce verbo amar.

Desta luz precisa
Que da alta esfera tudo ilumina
Resta chama pequena e decidida
Que em teu coração de menina
Vem me alegrar.

Nagib Anderáos Neto
22 de Junho de 2007

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

A Poesia solar de Fernado Pessoa

Num meio-dia qualquer, é possível vislumbrar a poesia solar de Fernando Pessoa na voz de Alberto Caieiro, seu mestre. Deseja-nos sol e deseja-nos vida. Ao meio-dia, com a vida a pino, verticalizamos nossas perspectivas humanas.
Que tenhamos em nossas casas uma cadeira predileta ao pé de uma janela aberta. Poesia e sol! Pela janela aberta é possível a entrada dos raios solares; e se fecha os olhos, “começa a não saber o que é o sol” porque se é, na verdade, do tamanho do que se é capaz de ver; não fechar a janela e não fechar os olhos para que a luz possa penetrar.
Quando a criança eterna de Caieiro desistiu do céu, fugiu para o sol e depois “desceu pelo primeiro raio que apanhou”. A criança veio com um raio de sol. E seriam necessários uma janela e olhos bem abertos para vislumbrá-la, para compreendê-la, para permitir que ela fosse o dedo apontando a direção do nosso olhar.
Na lição solar há muito o que pensar e muita metafísica. Não o pensar comum, rotineiro, mas o que traz soluções luminosas, visto que “se o poente é belo, é bela a noite que fica”. “Nisto é que se deve pensar quando se vai morrer; e estar alegre ao viver por saber que o sol existe, apesar de tudo quanto não se saiba.”
Quando Caieiro, o guardador de rebanhos, concluiu que “não há mistério no mundo” e “que tudo vale a pena”, Fernando Pessoa, seu discípulo confesso, completa: “tudo vale a pena se a alma não é pequena”; é a lógica do tamanho da alma e da capacidade de ver com a inteligência. Por isso, “a nossa única riqueza é ver”.
O sol ilumina o cenário do Guardador de Rebanhos do início ao final e é seu principal protagonista. Nem Pessoa, nem Caieiro, nem o leitor em sua cadeira predileta; mas o sol, sua luminosidade e energia, a vida e o conhecimento, o físico e o metafísico transfundidos na representação do divino para a inteligência e o coração humanos.
O poeta saúda-nos, deseja-nos sol e dá-nos sua poesia. Ao despedir-se de seus versos, do alto de sua janela, após concluir que passa e fica, como o Universo, deseja para si mesmo – e para sempre – um cenário como aquele: um dia cheio de sol!

Nagib Anderáos Neto