Whitman (o poeta da meia-noite, do sono, da morte e das estrelas, que se autoconsiderava uma espécie de deus libertador americano, contrapondo-se às tradições, que para ele eram coisas mortas, fria argamassa e tijolo), aquele que não necessitava de nenhum ídolo que não fosse ele próprio, é considerado o centro do cânone americano.
“Não posso conceber nenhum ser mais maravilhoso que o homem”, dizia. E ele nos impressiona, sobretudo, ao lançar um grito eterno e metafísico para o futuro, um sonoro e alto brado à procura de ouvidos seculares que pudessem ser os próprios, preparados ouvidos para o murmúrio poético, metafísico e ardente:
“Cheio de vida, hoje, compacto e visível,
Eu, com quarenta anos de idade no ano oitenta e três dos Estados Unidos.
A ti, dentro de um século ou de muitos séculos
A ti, que não nasceste, te busco.
Estás lendo-me. Agora o invisível sou eu,
Agora és tu, compacto, visível, o que intui os versos e o que me busca,
Pensando o feliz que seria se eu pudesse ser teu companheiro.
Sê feliz como se eu estivesse contigo. (Não tenhas demasiada segurança de que eu não esteja contigo).”
Nagib Anderáos Neto
sábado, 18 de setembro de 2010
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Correspondências
Comprei AS Flores do Mal em oitenta e sete. Era uma tradução de Jamil Almansur Haddad. Li e reli a obra do poeta francês, mas Baudelaire continuou distante do que eu pudesse sentir ou compreender. Os tradutores são, de certa forma, traidores. É muito difícil ser fiel ao texto, principalmente no caso da poesia. Mesmo assim, houve ali dois poemas que me chamaram a atenção: Correspondências e O Albatroz.
Muitos anos depois, ao ler a biografia do poeta, seguindo o conselho de Beto Portinari, compreendi melhor aqueles dois poemas e toda a obra do angustiado escritor. O amigo dissera-me que a leitura da vida do artista poderia me ajudar a compreender a sua obra.
Como em meu tempo de menino o francês era matéria obrigatória na escola, arrisquei a minha própria traição:
“A Natureza é um templo onde os pilares viventes
Deixam, às vezes, escapar palavras confusas.”
Estes primeiros versos transportaram-me à infância e fizeram-me experimentar novamente o sentimento panteísta, pois vozes misteriosas respondem-se na Natureza anunciando uma correspondência entre o que é visível e invisível, entre matéria e espírito, pois ela é um vasto templo, único e verdadeiro, cujos pilares deixam à mostra hieróglifos misteriosos e familiares que o passante distraído não os percebe, mas que os decifradores podem captar.
“O homem atravessa-a através de uma floresta de símbolos que observam-no com olhares familiares.”
O mundo visível como uma outra face do invisível. E por que não mais real? O véu que cobre a Natureza desvela uma realidade maior, embora invisível aos olhos físicos.
“Como ecos prolongados que na distância se confundem numa tenebrosa e profunda unidade, vasta como a noite e a claridade, perfumes, cores e sons se respondem”.
“Há perfumes frescos como a carne das crianças, doces como o som do oboé, verdes como as pradarias, e outros corrompidos, ricos e triunfantes, tendo a expansão de coisas infinitas, como o âmbar, o almíscar e o incenso que cantam os transportes do espírito e dos sentido.”
Toda esta simbologia de Baudelaire, onde o físico e o metafísico confundem-se numa inspiração que nem o próprio poeta sabe de onde vem, reporta-nos aos símbolos e às metáforas de Borges e Fernando Pessoa:
“Símbolos? Estou farto de símbolos”,
diz-nos o amargurado engenheiro Álvaro de Campos.
“Mas dizem que tudo é símbolo.
Todos me dizem nada.”
E alguns dias antes, o engenheiro-poeta resume versejando, lá pelos idos de 33:
“Símbolos. Tudo símbolos.
Se calhar tudo é símbolos.
Será tu um símbolo também? “
Neste Universo de símbolos, tudo são metáforas. Alguém já expressou que toda a palavra é uma metáfora morta. Seria o ser humano uma metáfora viva, expressão ou símbolo de uma realidade maior?
A palavra metáfora provém do grego e fundamenta-se numa relação de semelhança entre o sentido próprio de uma palavra e o figurado.
No clássico exemplo de se chamar de raposa uma pessoa astuta ou a juventude como a primavera da vida, o esperto animal empresta vivacidade aos humanos e a Natureza a sua beleza à juventude.
Há eloqüentes metáforas cheias de otimismo e de vida e as negras e entristecidas. A luz do conhecimento que poderia iluminar os escuros âmbitos do entendimento sugere vida, aprendizado e uma outra metáfora: o caminho do aperfeiçoamento que poderia ser percorrido pela inteligência de quem decidisse abandonar as velhas metáforas da passividade, do conformismo e do pessimismo.
A vida, como um vale de sofrimentos e de lágrimas, metáfora menor e entristecida que nos reporta ao aforismo pessimista que diz que ela é amarga ou que errar é humano, faz-nos refletir que a vida deve ser doce e que acertar é humano.
Se as nossas vidas são metáforas, expressões e símbolos de uma realidade maior, façamos com que elas se preencham com o conteúdo da natureza cheia de luz, movimento e transformação, e se correspondam com a Natureza.
Nagib Anderáos Neto
www.nagibanderaos.com.br
Muitos anos depois, ao ler a biografia do poeta, seguindo o conselho de Beto Portinari, compreendi melhor aqueles dois poemas e toda a obra do angustiado escritor. O amigo dissera-me que a leitura da vida do artista poderia me ajudar a compreender a sua obra.
Como em meu tempo de menino o francês era matéria obrigatória na escola, arrisquei a minha própria traição:
“A Natureza é um templo onde os pilares viventes
Deixam, às vezes, escapar palavras confusas.”
Estes primeiros versos transportaram-me à infância e fizeram-me experimentar novamente o sentimento panteísta, pois vozes misteriosas respondem-se na Natureza anunciando uma correspondência entre o que é visível e invisível, entre matéria e espírito, pois ela é um vasto templo, único e verdadeiro, cujos pilares deixam à mostra hieróglifos misteriosos e familiares que o passante distraído não os percebe, mas que os decifradores podem captar.
“O homem atravessa-a através de uma floresta de símbolos que observam-no com olhares familiares.”
O mundo visível como uma outra face do invisível. E por que não mais real? O véu que cobre a Natureza desvela uma realidade maior, embora invisível aos olhos físicos.
“Como ecos prolongados que na distância se confundem numa tenebrosa e profunda unidade, vasta como a noite e a claridade, perfumes, cores e sons se respondem”.
“Há perfumes frescos como a carne das crianças, doces como o som do oboé, verdes como as pradarias, e outros corrompidos, ricos e triunfantes, tendo a expansão de coisas infinitas, como o âmbar, o almíscar e o incenso que cantam os transportes do espírito e dos sentido.”
Toda esta simbologia de Baudelaire, onde o físico e o metafísico confundem-se numa inspiração que nem o próprio poeta sabe de onde vem, reporta-nos aos símbolos e às metáforas de Borges e Fernando Pessoa:
“Símbolos? Estou farto de símbolos”,
diz-nos o amargurado engenheiro Álvaro de Campos.
“Mas dizem que tudo é símbolo.
Todos me dizem nada.”
E alguns dias antes, o engenheiro-poeta resume versejando, lá pelos idos de 33:
“Símbolos. Tudo símbolos.
Se calhar tudo é símbolos.
Será tu um símbolo também? “
Neste Universo de símbolos, tudo são metáforas. Alguém já expressou que toda a palavra é uma metáfora morta. Seria o ser humano uma metáfora viva, expressão ou símbolo de uma realidade maior?
A palavra metáfora provém do grego e fundamenta-se numa relação de semelhança entre o sentido próprio de uma palavra e o figurado.
No clássico exemplo de se chamar de raposa uma pessoa astuta ou a juventude como a primavera da vida, o esperto animal empresta vivacidade aos humanos e a Natureza a sua beleza à juventude.
Há eloqüentes metáforas cheias de otimismo e de vida e as negras e entristecidas. A luz do conhecimento que poderia iluminar os escuros âmbitos do entendimento sugere vida, aprendizado e uma outra metáfora: o caminho do aperfeiçoamento que poderia ser percorrido pela inteligência de quem decidisse abandonar as velhas metáforas da passividade, do conformismo e do pessimismo.
A vida, como um vale de sofrimentos e de lágrimas, metáfora menor e entristecida que nos reporta ao aforismo pessimista que diz que ela é amarga ou que errar é humano, faz-nos refletir que a vida deve ser doce e que acertar é humano.
Se as nossas vidas são metáforas, expressões e símbolos de uma realidade maior, façamos com que elas se preencham com o conteúdo da natureza cheia de luz, movimento e transformação, e se correspondam com a Natureza.
Nagib Anderáos Neto
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quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Querida
Vejo-te nestas manhãs e ao teu lado
silenciosamente sinto-me vivo, respirando.
Tua agitação me acalma, teu sorriso,
cafezinho na cozinha. No jardim
o beija-flor brinca em volta do ipê-roxo
que plantamos juntos. Quanto tempo e
quanta paciência até que surgisse a primeira flor!
Lição de Deus em nosso quintal. E nem reparávamos.
É a cara da mãe!
As fugas, o dinheiro emprestado, o ano repetido,
minhas poesias, meus sofrimentos...
Eras sempre a primeira a saber.Sofrias comigo
e o meu sofrimento dividido
não era tão doído.
O bairro da Aclimação, brigas de rua,
ensaios na TV Tupi, meu sagui, galinhas
da Angola, o amigo Raposo, pestanas queimadas.
Lembro-me do primeiro ônibus elétrico
e do IV Centenário no Ibirapuera.
Não deixarei que nada caia no esquecimento.
Vejo-te nestas manhãs e ao teu lado
silenciosamente ouço o teu silêncio.
Nagib Anderáos Neto
27/08/82
silenciosamente sinto-me vivo, respirando.
Tua agitação me acalma, teu sorriso,
cafezinho na cozinha. No jardim
o beija-flor brinca em volta do ipê-roxo
que plantamos juntos. Quanto tempo e
quanta paciência até que surgisse a primeira flor!
Lição de Deus em nosso quintal. E nem reparávamos.
É a cara da mãe!
As fugas, o dinheiro emprestado, o ano repetido,
minhas poesias, meus sofrimentos...
Eras sempre a primeira a saber.Sofrias comigo
e o meu sofrimento dividido
não era tão doído.
O bairro da Aclimação, brigas de rua,
ensaios na TV Tupi, meu sagui, galinhas
da Angola, o amigo Raposo, pestanas queimadas.
Lembro-me do primeiro ônibus elétrico
e do IV Centenário no Ibirapuera.
Não deixarei que nada caia no esquecimento.
Vejo-te nestas manhãs e ao teu lado
silenciosamente ouço o teu silêncio.
Nagib Anderáos Neto
27/08/82
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sábado, 4 de setembro de 2010
Teus Olhos
Teus olhos
Inusitados versos
Os meus lindos caminhos
Que percorro sem cessar.
Teus olhos
Imensidão
A vida que cintila
Aonde os meus olhos se vão.
Eu caminho nos teus dias
Eu caminho nos teus olhos
Pois eu vou na imensidão
Aonde os teu olhos se vão.
Nagib Anderáos Neto
Inusitados versos
Os meus lindos caminhos
Que percorro sem cessar.
Teus olhos
Imensidão
A vida que cintila
Aonde os meus olhos se vão.
Eu caminho nos teus dias
Eu caminho nos teus olhos
Pois eu vou na imensidão
Aonde os teu olhos se vão.
Nagib Anderáos Neto
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