sábado, 19 de junho de 2010

OCIDENTES

Lá para onde me levam tais pores – de – sol
além das areias e das ondas
no ocidente impossível onde sonho encontrar-me,
talvez com outro nome, numa nova vestidura,
onde eu seja prescindível e possa olhar para outros ocidentes,

Lá na renovada e grandiosa Pasárgada,
entender-nos-emos através do olhar,
e cada sorriso será um aviso
a nos lembrar que existimos.

Deus não escreve livros,
escreve homens e Universos.
Homens escrevem versos
e constroem pontes e fazem guerras.

Espero-me no ocidente para lembrar com tristeza e alegria
que se fizéramos guerras e sofrêramos,
escrevêramos livros que nos confortariam no poente,
na profundez da noite sem-fim.

Nagib Anderáos Neto
2005-12-23
www.nagibanderaos.com.br

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Uma Paciente e Silenciosa Aranha

Uma aranha paciente e silenciosa
Isolada e ereta num pequeno promontório
Explorando o vasto vazio ao redor
Desfiando filamento a filamento para fora de si mesma,
Desfiando rápida e incansávelmente.

Oh minha alma desde o teu posto,
Cercada, isolada na imensidão oceânica do espaço,
Constantemente pensando, arriscando-te, movimentando-te procurando as esferas para conectá-las,
Até que a ponte necessária seja formada; até que a flexível âncora fixe,
Até que a teia que teces te prenda em algum lugar
Oh minha alma.

Traduzido por Nagib Anderáos Netowww.nagibanderaNagib Anderáos Neto
Publicado no Recanto das Letras em 30/12/2006

Clarice

Lembra-me Clarice, que resistiria à morte, não por temê-la, mas para não se separar dos queridos filhos e netos, da família.Num sonho me disse estar muito bem. Para o meu filho, que aprendera a voar.Deveria ter descoberto, mais viva do que nunca, que ficáramos desamparados e sós.
Clarice, que no nome traz a luz, nos disse, na eloquência do convivio, que viver é bom,mas conviver é melhor, como reler, como reviver.
Clarice, alguém já disse que todos os homens são um só, como os livros. Tudo se confunde em Deus, tudo se manifesta em nós.
Saudade.

A Poesia Solar de Fernando Pessoa



Num meio-dia qualquer, é possível vislumbrar a poesia solar de Fernando Pessoa na voz de Alberto Caieiro, seu mestre. Deseja-nos sol e vida. Ao meio-dia, com a vida a pino, verticalizamos nossas perspectivas humanas.
Que tenhamos em nossas casas uma cadeira predileta ao pé de uma janela aberta. Poesia e sol! Pela janela aberta é possível a entrada dos raios solares; e se fecha os olhos, “começa a não saber o que é o sol” porque se é, na verdade, do tamanho do que se é capaz de ver; não fechar a janela e não fechar os olhos para que a luz possa penetrar.
Quando a criança eterna de Caieiro desistiu do céu, fugiu para o sol e depois “desceu pelo primeiro raio que apanhou”. A criança veio com um raio de sol. E seriam necessários uma janela e olhos bem abertos para vislumbrá-la, para compreendê-la, para permitir que ela fosse o dedo apontando a direção do nosso olhar.
Na lição solar há muito o que pensar e muita metafísica. Não o pensar comum, rotineiro, mas o que traz soluções luminosas, visto que “se o poente é belo, é bela a noite que fica”. “Nisto é que se deve pensar quando se vai morrer; e estar alegre ao viver por saber que o sol existe, apesar de tudo quanto não se saiba.”
Quando Caieiro, o guardador de rebanhos, concluiu que “não há mistério no mundo” e “que tudo vale a pena”, Fernando Pessoa, seu discípulo confesso, completa: “tudo vale a pena se a alma não é pequena”; é a lógica do tamanho da alma e da capacidade de ver com a inteligência. Por isso, “a nossa única riqueza é ver”.
O sol ilumina o cenário do Guardador de Rebanhos do início ao final e é seu principal protagonista. Nem Pessoa, nem Caiero, nem o leitor em sua cadeira predileta; mas o sol, sua luminosidade e energia, a vida e o conhecimento, o físico e o metafísico transfundidos na representação do divino para a inteligência e o coração humanos.
O poeta saúda-nos, deseja-nos sol e dá-nos sua poesia. Ao despedir-se de seus versos, do alto de sua janela, após concluir que passa e fica, como o Universo, deseja para si mesmo – e para sempre – um cenário como aquele: um dia cheio de sol!

Nagib Anderáos Neto

segunda-feira, 14 de junho de 2010

A Casa

Agradavam-me os dias chuvosos e as doenças infantis que me faziam ficar em casa sem ir para a escola.

A chuva, com seu cheiro e seus estrondos; a tarde anoitecida pelo temporal, o estalido seco do pingo no zinco, o frio, a cama, o cobertor, a mãe rondando os silêncios da casa vazia, seriam as recordações de um futuro repleto de passado.

Os acontecimentos fluiriam lentamente, sugados pelo buraco do tempo por onde a areia desce vagarosamente na infância, e decidida e apressadamente conforme chegam os anos e passa uma vida para dar lugar à outra.

Tudo se define no tempo e se explica na recordação. Tudo flui do futuro para o passado através de um presente que vai tendo cada vez mais significado.

Fosse a chuva, a catapora ou um simples resfriado, o importante era não sair, era ficar ali infinitas vezes até que aquela casa passasse a viver eternamente em meu coração.



Nagib Anderáos Neto

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sexta-feira, 4 de junho de 2010

Um Encontro Original

No botequim do Hugo conheci meu colega de bercário. Na verdade era ele e mais um, pois havia o gêmeo. Foi meio louco. Revi o cara depois de 61 anos. Mas aquela fisionomia era inesquecível. Conheço o sujeito de algum lugar, pensei.Depois de um e outro gole de cerveja, perguntei quantos anos ele tinha. Sessenta e um.Então você é de 48. Sim, Setembro. Eu também. Que dia? Oito. Eu de seis. Que coincidência! Nasci na Pró Matre, ele disse.Eu também. Então estávamos juntos no berçário!Nós três, ele disse, com o meu gêmeo.
Trocamos cartões, e-mails, telefones. Pra maior surpresa descobrimos que eramos vizinhos na Itacema, sem jamais nos termos visto.
A vida é assim. Nascemos estranhos, morreremos também.Talvez estejamos juntos na lápide fatal. E lá, de túmulo a túmulo, a conversa inaudível dos vivos que não se comunicam, até que o musgo cubra os nossos lábios, até que silenciemos para sempre.

Nagib Anderáos Neto
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quinta-feira, 3 de junho de 2010

Os Meus Livros - Jorge Luis Borges - Rosa Profunda

Os Meus Livros

Os meus livros (que não sabem que existo)
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que me exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
Dir-me-ão para sempre.

Jorge Luis Borges, in "A Rosa Profunda"